Cirurgias ressectivas para epilepsia caem 76,9% no SUS em 15 anos

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Vitor Hugo Gonçalves

15 de junho, 2026

Cirurgias ressectivas para epilepsia caem 76,9% no SUS em 15 anos

Estudo brasileiro mostra redução expressiva nas taxas de lobectomia temporal anterior e amigdalohipocampectomia seletiva, com concentração dos procedimentos no Sudeste e barreiras persistentes de acesso a centros especializados

 

O Brasil registrou 2.921 microcirurgias para lobectomia temporal anterior e amigdalohipocampectomia seletiva no Sistema Único de Saúde entre 2008 e 2022, segundo estudo publicado no Arquivos Brasileiros de Neurocirurgia. A taxa nacional desses procedimentos apresentou uma queda de 76,9% no período, apesar de a cirurgia seguir como uma alternativa consolidada para pacientes com epilepsia do lobo temporal mesial, esclerose hipocampal e resistência ao tratamento medicamentoso.

 

A série histórica começou com 0,145 procedimento por 100 mil habitantes em 2008 e atingiu o pico em 2010, com 0,170 por 100 mil habitantes. A partir de 2011, houve queda progressiva até o menor patamar, registrado em 2020, quando a taxa chegou a 0,027 por 100 mil habitantes. O volume voltou a crescer discretamente em 2021 e 2022, mas sem recuperar o nível observado no início da série.

 

Problema brasileiro é estrutural

O estudo compara o cenário nacional com a tendência observada em países desenvolvidos, onde também há queda nas taxas de lobectomia temporal anterior e amigdalohipocampectomia seletiva. A diferença está na provável causa. Em sistemas de maior renda, a redução tem sido associada à incorporação de novas tecnologias, como estimulação neural e terapia térmica intersticial a laser. No Brasil, o principal fator apontado é o baixo acesso da população a centros de referência.

 

Os autores classificam o cenário como “desconcertante” porque a cirurgia de epilepsia permanece segura, efetiva e capaz de modificar a trajetória clínica de pacientes com epilepsia resistente. O artigo ressalta que a demora no encaminhamento, a insistência em novos esquemas medicamentosos após a definição de refratariedade, a baixa percepção pública sobre o tratamento cirúrgico e a distribuição desigual de serviços especializados mantêm uma parcela de pacientes fora da rota terapêutica adequada.

Cirurgias ressectivas para epilepsia caem 76,9% no SUS em 15 anos. Crédito: Divulgação.

Demanda supera em muito a oferta

A discrepância entre carga de doença e volume cirúrgico é um dos pontos centrais do estudo. Considerando a incidência anual de epilepsia no Brasil, a proporção de pacientes com epilepsia resistente e a fração potencialmente candidata à cirurgia, os autores estimam que cerca de 34 mil brasileiros por ano deveriam ser encaminhados para avaliação cirúrgica especializada. O número contrasta com os 2.921 procedimentos de lobectomia temporal anterior e amigdalohipocampectomia seletiva registrados em 15 anos no SUS.

 

A queda, então, nas cirurgias ressectivas para epilepsia no Brasil não reflete apenas mudança de preferência terapêutica ou avanço tecnológico. O dado aponta para uma barreira de acesso, formação, infraestrutura e organização da rede. A cirurgia existe, a indicação permanece válida e a demanda presumida é alta, mas a oferta segue concentrada, irregular e insuficiente para o tamanho do território brasileiro.

 

Sudeste concentra a maior parte dos procedimentos

A distribuição regional revelou forte concentração da oferta cirúrgica. Das 2.921 cirurgias registradas, 1.755 ocorreram no Sudeste, o equivalente a 60,1% do total. O Centro-Oeste respondeu por 602 procedimentos, seguido pelo Sul, com 527. Norte e Nordeste tiveram participação muito menor, com 6 e 31 cirurgias realizadas, respectivamente. São Paulo foi o principal polo nacional, com 1.529 procedimentos, mais da metade de todas as cirurgias registradas no SUS.

 

A análise por residência dos pacientes mostra que a demanda não se restringe aos estados que operam. Quando o local de origem é considerado, Norte e Nordeste passam a representar 98 e 210 pacientes tratados, respectivamente, evidenciando a dependência de deslocamento para centros de referência em outras unidades federativas. Nove estados não registraram nenhuma cirurgia desse tipo no período: Acre, Roraima, Amapá, Tocantins, Maranhão, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia e Espírito Santo.

Estudo “Trends in Anterior Temporal Lobectomy and Selective Amygdalo-Hippocampectomy Performed on the Brazilian Public Health System from 2008 to 2022”, publicado nos Arquivos Brasileiros de Neurocirurgia

Tratamento Fora de Domicílio perde força

Do total de procedimentos, 588 foram realizados por meio do Tratamento Fora de Domicílio, mecanismo do SUS criado para garantir atendimento quando o tratamento não está disponível no estado de origem. São Paulo recebeu 348 desses pacientes, o equivalente a 59,1% dos encaminhamentos. Os estados que não realizaram esse tipo de cirurgia encaminharam, juntos, 163 pacientes.

 

O uso do TFD atingiu seus maiores volumes em 2014 e 2016, com 64 pacientes em cada ano, mas caiu nos anos seguintes. Em 2020, durante a pandemia de COVID-19, chegou ao menor valor da série, com 8 pacientes. Para os autores, a pandemia agravou uma subutilização que já vinha ocorrendo antes, especialmente por causa da suspensão de cirurgias eletivas e da dificuldade de manter fluxos regulares de investigação e encaminhamento.

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