Dependência de tecnologia pode comprometer formação, alerta neurocirurgião em aula sobre craniometria
Em Masterclass, o Dr. Cezar Kabbach detalha o uso de marcos anatômicos e pontos craniométricos como recursos fundamentais para a precisão cirúrgica e a independência técnica frente à indisponibilidade de neuronavigadores
A plataforma SOS Neurocirurgia promoveu, na sexta-feira (27), uma live especial dedicada à aplicação prática dos pontos craniométricos, consolidando a importância do domínio da anatomia de superfície como requisito fundamental para a prática cirúrgica independente. A discussão, guiada pelo neurocirurgião Dr. Cezar Kabbach, enfatizou a necessidade de precisão técnica em cenários onde a tecnologia de neuronavegação é inexistente ou limitada, como ocorre frequentemente na rede pública de saúde brasileira.
O conteúdo central reafirmou que, embora o neuronavegador seja um recurso útil para a confirmação de alvos profundos, a localização de lesões corticais e subcorticais deve ser pautada em marcos anatômicos concretos, uma vez que a anatomia, ao contrário dos sistemas digitais, não está sujeita a erros de registro ou ao fenômeno de brain shift: “O bem feito é saber o básico de verdade. Pontos craniométricos é o mínimo que o neurocirurgião precisa saber”, explica o Dr. Cezar.
Anatomia soberana
O debate enfatizou que o uso do neuronavegador deve ser complementar e nunca substitutivo ao julgamento clínico-anatômico. O Dr. Kabbach alertou para as limitações intrínsecas dos sistemas digitais, especialmente o fenômeno de deslocamento cerebral. “Eu uso o neuronavegador como um método de confirmar o que eu já sei. Tem um problema: o navegador tem shift, a anatomia não tem”, explicou.
Essa filosofia de ensino visa preparar o residente para a prática real, onde a disponibilidade de equipamentos de ponta não é constante. “Você não deve se apoiar no neuronavegador. Você tem que saber localizar aquela lesão; você tem que saber como chegar nessa lesão sem o material adequado”, reiterou, reforçando que o excesso de facilidade tecnológica pode atrofiar o aprendizado anatômico crítico.

Projeções e marcos topográficos fundamentais
A aula detalhou marcos essenciais para o acesso ventricular e a delimitação de áreas eloquentes. O Bregma foi estabelecido como referência primária, situado a 13 cm do Násio, com projeção direta para o Forame de Monro. A partir dele, definiu-se o Ponto de Kocher, 2 a 3 cm lateral e 1 cm anterior à sutura coronal, como a via padrão para o corno anterior.
Para a localização do Sulco Central, a referência utilizada foi o ponto 5 cm posterior ao Bregma na linha média. Na face lateral, o Stephanion (encontro da sutura coronal com a linha temporal superior) foi apontado como o marco de junção entre o sulco frontal inferior e o pré-central. O Dr. Cezar salientou que “da linha temporal superior para baixo eu tenho ventrículo; para cima, não adianta eu querer vir reto porque eu não vou chegar”.
Precisão
A discussão avançou para a análise de exames, diferenciando o plano órbito-meatal da tomografia do plano paralelo ao solo da ressonância magnética. Essa distinção é crucial para evitar erros milimétricos em áreas motoras ou da fala. O uso do Ponto Intraparietal foi defendido para acessos ao átrio ventricular, enquanto o Astério foi destacado como o marco de transição dos seios transverso e sigmoide em acessos retrossigmoides.
A necessidade de precisão absoluta em casos sem suporte tecnológico foi o encerramento da sessão. Aqui, o Dr. Kabbach ilustrou a responsabilidade do cirurgião ao planejar craniotomias em áreas de risco funcional: “Se o paciente ficasse afásico ou hemiplégico, a culpa seria minha. Eu tinha que acertar em cheio, e o único jeito de acertar em cheio é sabendo anatomia”, concluiu.